Essa é a história do Arbalest Digital, o projeto que provou que um cara sozinho com a mentalidade certa e com as ferramentas certas faz mais estrago (no bom sentido) que um time inteiro de dez programadores perdidos no ar-condicionado.
O Ponto Cego da TI
Eu estava trabalhando no setor de TI de supermercado como UX/UI Designer. O time "oficial" estava enfurnado tentando construir um ERP do zero para gerenciar tudo, desde nota fiscal até o estoque. Só que eles eram lentos, cometiam erros básicos e, sinceramente, ignoravam os problemas reais de quem estava no chão de fábrica.
Eu via setores inteiros sendo deixados para trás porque "não eram prioridade". Em vez de entrar em briga política ou esperar uma autorização, resolvi fazer eu mesmo. Sem pedir licença e, como se viu depois, sem pedir desculpas.
O Caos das Cadernetas: Módulo de Validade
A primeira parada foi o registro de validade. Parece piada, mas em um supermercado gigante, os repositores usavam caneta e caderninho. O cara passava o dia anotando manualmente o EAN (aquele código de 13 dígitos), a descrição, a validade e a quantidade.
O fluxo era patético: o cara tirava uma foto da página do caderno e mandava no WhatsApp do encarregado. O encarregado mandava pro gerente, que mandava pro gerente da loja, que finalmente chegava na pessoa que decidia se ia rolar uma promoção ou não. Uma burocracia violenta que levava dias para uma informação simples atravessar a rua.
Eu criei o módulo de Gestão de Validade no Arbalest Digital. O repositor abria o app, apontava a câmera do celular pro código de barras ou bipava com o coletor e pronto: o sistema já trazia tudo. Ele só inseria a data e a quantidade.
No mesmo segundo, o gerente e o pessoal de preços tinham um painel completo para decidir o que fazer. Acabou o papel, acabou a foto borrada no WhatsApp e a demora para uma informação chegar até onde deveria.
Tela inicial.
Lista de validade.
Adicionando um produto.
Exemplo com a câmera do celular.
Produto encontrado.
Escalando a Solução: Farmácia
Depois que o primeiro módulo estourou, eu expandi para a farmácia. Lá, coloquei inteligência no negócio: o sistema avisava se um remédio ia vencer antes do paciente conseguir terminar o tratamento (ex: 30 comprimidos para um vencimento em 20 dias). Também digitalizei as transferências entre farmácia e depósito, que eram uma zona e geravam divergência de estoque o tempo todo.
Validade da farmácia. O prazo de venda está encerrado porque o medicamento vence em 11 dias e contém 30 comprimidos.
Pedido de produto da farmácia para o depósito. O responsável por fazer pedidos insere a quantidade com base na quantidade máxima e mínima para a área de venda.
Depósito separando produtos do pedido. Aqui, o responsável pode mandar uma quantidade diferente do que foi pedido, de acordo com o estoque atual.
Escalando a Solução: Açougue
No açougue, a zona era outra. Os gerentes pediam cortes de carne pelo WhatsApp, copiando e colando listas velhas e mudando só a quantidade. O açougueiro recebia três listas diferentes, todas bagunçadas, e tinha que imprimir e reescrever tudo para conseguir trabalhar. No Arbalest, eu criei um sistema de pedidos profissional. O cara do açougue agora tinha uma TV no setor com o status de cada pedido: "Solicitado", "Em produção", "Pronto". Outro nível de operação.
Pedido para o açougue.

Painel com pedidos para produção.
O Preço da Eficiência
Eu construí tudo isso usando IA para acelerar o desenvolvimento e focando 100% no que o usuário precisava, não no que o manual de engenharia dizia ser o "padrão". Eu saía da cadeira, gravava áudio com os caras, entendia a dor deles e entregava a solução.
O problema? O time de programadores da empresa não fazia ideia do que eu estava aprontando. Quando perceberam que um "designer" tinha resolvido sozinho o que eles não entregavam há um ano, o ego bateu forte. Eu não estava brincando de fazer telinha; eu estava entregando software que as pessoas amavam usar.
É claro, fui demitido no dia seguinte à descoberta. Sem conversa, sem feedback, foi tipo: "só passa no RH".
O "Eu avisei"
A parte mais irônica é que, dois meses depois de eu sair, recebi uma ligação do pessoal da farmácia. A empresa tentou enfiar goela abaixo uma "solução oficial" inspirada no que eu fiz, mas o sistema era tão terrível e burocrático que ninguém conseguia usar. Eles me ligaram implorando para eu liberar o acesso ao Arbalest de novo.
Infelizmente, por questões de segurança e ética, não pude liberar, mas o recado ficou dado: o Arbalest Digital não era apenas um aplicativo; era a prova de que entender o usuário e agir rápido vale muito mais do que qualquer estrutura corporativa inchada.
